A Vigilante do Amanhã : Ghost in the Shell é uma adaptação da obra em mangá escrita por Shirow Masamune em  que ganhou três versões em anime, sendo a mais famosa delas a de 1995, que simplesmente revolucionou o gênero cyberpunk e foi o grande influenciador da trilogia Matrix. O filme de 2017 tem direção de Rupert Sanders, diretor de 46 anos que tem muito a oferecer no futuro após esse seu segundo filme – ele já tinha dirigido A Branca de Neve e o Caçador em 2012.

A adaptação mescla a história do mangá original, com a dos três filmes lançados, não mostrando apenas a caçada principal pelo antagonista, como também se aprofundando na origem da protagonista interpretada por Scarllet Johansson. Sua personagem, Major, é um cérebro humano num corpo totalmente robótico, e passa o filme todo se lamentando, sofrendo amargamente e tentando entender quem realmente é. Dilema filosófico interessante, que foi completamente estragado pela atuação plástica, pouco à vontade de Johansson com a personagem,  e o roteiro que a todo momento bate na mesma tecla. Não só a super-estrela, mas parece que todo o elenco está desmotivado e sem nenhum pingo de inspiração. Isso é um problema que vem do diretor, que constrói cenários fantásticos com uma estética nunca antes vista em live-action, mas não sabe fazer o básico, que é coordenar corretamente seus atores.

Os que se salvam são Pilou Asbaek, que dá uma visão diferente à Batou (um dos melhores personagens da obra principal) e Michael Pitt, que faz o hacker antagonista, Kuze. Já Takeshi Kitano que faz Aramaki, único que fala japonês durante todo o filme, tem uma interpretação sofrível e vergonhosa para um ator experiente e um personagem forte. Kitano não tem expressão facial alguma, nenhuma movimentação corporal na hora de falar, e uma voz praticamente automática, sem profundidade ou emoção. Teoricamente, é um personagem que usa do silêncio para mostrar sua superioridade, mas que não tem vida e nem causa afeto com o público. Juliette Binoche, que interpreta a Dr. Ouelet, depois de Batou a personagem mais próxima da Major, e que tem um incrível histórico de participações em filmes medianos (Godzilla de 2014, Os 33 de 2015, Mil Vezes Boa Noite de 2013) também é de pouca expressividade e joga no lixo uma personagem que poderia ser boa, mesmo desfavorecida pelo roteiro.

Esse último, o maior problema do filme. Desde os primeiros momentos de exibição, quando apresenta explicações contextualizadoras sobre o presente do filme (como se fosse necessário); até a última frase de Johansson, o texto escrito por William Wheeler (episódios da série Ray Donovan e o filme Rainha de Katwe, 2016) e Ehren Kruger (responsável pela história dos últimos três Transformers) subestima o público com diálogos expositivos ao extremo, totalmente incabíveis e que são forçados goela à baixo. Por exemplo, em mundo onde a tecnologia implantada mental e corporalmente já é algo comum, por que diabos toda hora alguém tem que ficar reafirmando o quão importante ou perigosa ela é ?

Já não bastasse isso, as questões filosóficas que são sucessos no anime, aqui são toda hora explicadas, mencionadas, como se quem assiste não entendesse a mensagem que fica clara já no primeiro ato.

O que resta de bom no filme são a dedicação, o fanatismo e a genialidade do diretor Rupert Sanders, usando bastante dos efeitos práticos. Monta uma Tokyo cheia de propagandas enormes em hologramas, com um submundo forte e os aprimoramentos mentais tão presentes quanto os celulares são hoje em dia. Rupert encontra ótimas soluções visuais para absolutamente tudo, dando destaque ao traje de combate da Major – já que não se pode nudez para um filme com restrição de 12 anos, por que não uma roupa transparente que remete ao nude ? Uso perfeito da câmera lenta, abuso de cores e uma atmosfera que acrescenta muito para o futuro dos filmes cyberpunk e a retomada dessa cultura. Seu modo de trabalhar de cara lembra Zack Snyder, ao usar tons mais sombrios (aqui não há alívios cômicos, sequer piadas) e fidelidade de adaptação, como a cena inicial da montagem da Major e a luta contra o Spyder Tank, um fanservice necessário. A trilha sonora não tem nada de especial, e é até frustrante a trilha original japonesa não ter sido utilizada durante o filme.

Ao fim, A Vigilante do Amanhã : Ghost in the Shell, é um longa com um peso muito forte das decisões do diretor, sejam elas boas ou ruins. Não é tudo aquilo esperado, mas também nenhuma desgraça impossível de assistir, desde que não seja em 3D.