É difícil lidar com perdas. Mesmo a pessoa mais fria e insensível do mundo ficará abalada quando perder alguém a quem ama. Ela pode não demonstrar isso, mas com certeza é o que está acontecendo. Manchester à Beira-Mar aborda muito bem essa questão, e é fácil dizer que é o filme mais triste do passado ano de 2016. E não triste como um drama adolescente, com cenas felizes e engraçadinhas até que um dos personagens principais morre e força o público a soltar algumas lágrimas; mas sim triste do começo ao fim – melancólico, cinza, depressivo e amargo, difícil de digerir.

Dirigido por Kenneth Lonergan (que em 2000 fez o excepcional ‘Conte Comigo’) e estrelado por Casey Affleck (também conhecido como irmão do atual Batman), acompanha a vida de Lee Chandler, um faz-tudo de quatro apartamentos que foi se isolar em Boston devido à acontecimentos que ao longo do filme são explicados. Seu irmão Joe morre, e Lee é obrigado a voltar a cidade onde a pior e a melhor parte de sua vida aconteceram. Em Manchester, ele se vê confuso ao descobrir que o irmão deixou a guarda do sobrinho adolescente para ele cuidar. Atormentado pelas lembranças, Lee insiste em não fazê-lo, mas precisa decidir o futuro do garoto e o seu próprio.

Deve-se elogiar a decisão do diretor por optar em fazer um filme fora do espectro comum do gênero dramático e de perdas. Os personagens não servem de consolo uns aos outros, e a interpretação de Affleck é muito incômoda (de uma maneira boa) quando isso acontece. As pessoas tentam confortá-lo, tentam ser seus amigos, mas ele sempre acaba os ignorando ou mandando-os se foder. Quando o sobrinho mais precisa da ajuda do tio depressivo e solitário, que acaba virando sua companhia mais íntima mesmo com tantos amigos e duas namoradas, Lee está distante, preso num pesado terrível que viveu com sua esposa (interpretada magistralmente por Michelle Williams) e acaba passando o mesmo sentimento para o garoto. O roteiro faz um estudo de personagem muito profundo com o protagonista, que em seus flashbacks muito bem encaixados está feliz e carinhoso com a família, e no presente tem um olhar perdido e sem esperanças no futuro. Morto por dentro.

Em certo momento do filme, o sobrinho Patrick (interpretado pela revelação Lucas Hedges, que até foi indicado ao Oscar pelo papel) diz ao tio que desgraças o perseguem. Tragédias vão com ele para onde quer que seja, e mesmo tentando fugir e esquecer disso tudo, é impossível reparar essa dor. Affleck e Williams tem um diálogo de quebrar o coração de qualquer um, lá pro final do filme. Durante as mais de duas horas de metragem, vai se construindo aquele clima pesado, com personagens tristes e fotografia acinzentada, praticamente deixando o choro entalado no espectador, para chegar ao grande clímax, que apesar de retratar uma história simples, é uma situação que ninguém desejaria nem para o pior dos inimigos.

Casey Affleck e Lucas Hedges

Não seria certo dizer que os personagens possuem uma “química” uns com os outros, mas as suas diferenças entre si dão volume e motivos para a trama. O relacionamento de Lee com Patrick é duro, de poucas palavras (afinal, os dois estão tristes com a mesma perda, e precisam lidar com os defeitos do outro), mas que vai se desenvolvendo tão bem que faz o espectador a suavemente gostar de vê-los juntos. Michelle Williams, que faz a esposa Randi, tem uma atuação fantástica porém pouco espaço no filme, impossibilitando de criar uma afinidade ou pelo menos de um conhecimento maior para o público. Ela é quase uma estranha, quando aparece no final do filme. Isso se deve à algumas cenas mais longas do que o necessário e ao começo, que situa o personagem de Casey no seu emprego em Boston, mas levando mais tempo do que o espectador realmente precisaria para entender tudo.

Produção com nome da Amazon, é um dos melhores filmes de 2016 e que faz valer suas indicações ao Oscar, prêmio absoluto da Academia de Cinema e Artes. Um daqueles que não sai da memória e de certa forma incomoda, mas de um jeito bom se tratando de uma obra. Se tratando de Casey Affleck e todos os problemas com acusações de abuso sexual que teve uma passado, é praticamente uma redenção em formato de arte, pelo menos é o que sua atuação entrega. Não vamos julgá-lo pelo seus erros pessoais, mas sim pelos seus acertos como ator, e é isso que o filme representa : a dificuldade do perdão. E não o perdão dos outros. Mas a dificuldade de perdoar a si mesmo.