“É possível haver uma nova ditadura na Alemanha?”.

Com essa dúvida, A Onda de 2009, dirigido por Dennis Gansel, se baseia no fato que aconteceu na Califórnia em 1967, e praticamente reinventa a história, levando-a para a Alemanha do ano de produção. Na verdade, não dá nem pra dizer que é uma adaptação da história real, mas sim uma nova história que simula o que aconteceu em Palo Alto nos anos 60, onde o professor americano Ron Jones passou para seus alunos de história a criação de uma nova ditadura, e tentou mostrar como as pessoas são facilmente manipuladas com uma ideia de grupo e união.

No filme alemão, o professor se chama Jurgen Vogel, interpretado por Rainer Wenger, e com uma sala de autocracia para ensinar, começa a passar os mesmo ensinamentos que Jones usou nos EUA. Primeiro, ensinou postura, respeito, pediu aos alunos para se levantarem quando quiserem falar. A coisa foi evoluindo até aquela sala virar um verdadeiro grupo, com uniforme, slogan, nome (no original “A Terceira Onda“, no filme, apenas “A Onda“), e todos os conceitos do professor saíram da sala de aula e partiram para as ruas, juntando diversos membros que não eram da escola mas simpatizaram com A Onda. Tudo isso em uma semana.

O professor Vogel queria mostrar como seria ruim viver uma ditadura, obedecer ordens, viver na Alemanha fascista da Segunda Guerra, mas os alunos acabaram entendendo errado e viraram tudo aquilo que o professor queria repreender, o que resultou em brigas contra anarquistas e pichações pela cidade com o símbolo do grupo, que tinha até uma saudação, bem parecida com um certo Heich. É aí que entram outros pontos de vista no roteiro. Todos alunos estão lá, manipulados sem saber e achando que estão contra algo, e de outro lado, alguns poucos que acham loucura o que o Sr. Vogel está fazendo, que realmente enxergaram o quão absurdo isso é. Os personagens de Jennifer Ulrich (Karo) e Amelie Kiefer (Mona) passam a agir contra A Onda e tentar difamar o movimento pela escola.

Tudo começa a ficar mais interessante a partir daqui, pois o roteiro passa a brincar com o espectador e com seus valores, e faz algo parecido com o livro Lolita, onde sem querer e sem perceber, o leitor está sentindo pena e apoiando as ações de um pedófilo. Karo faz a chatona, a do contra, mas na verdade ela é quem está certa por não se juntar ao movimento e perceber a loucura disso tudo. Mas o filme te envolve tanto com os personagens principais, com os membros da A Onda, que as inversões de valores só ficam claras ao final da história.

Os personagens sofrem transformações de personalidade notáveis, o valentão, a bonitinha, o esportista, esquecem suas ‘funções’ dentro de uma escola e se tornam um só. Assim a história continua brincando com o espectador, mostrando os lados positivos do fascismo, de esquecer a vaidade, esquecer as roupas de marca, mas ao mesmo tempo o quão bizarro é se comportar como um soldado, um escravo consciente. O elenco escolhido consegue captar isso perfeitamente, sendo um filme alemão, nada de atores famosos ou super-celebridades, mesmo assim os jovens e desconhecidos conseguem dar conta do recado. Destaque para  a atuação de Frederick Lau, que tem o personagem que mais muda e se desenvolve durante o filme – de nerd bobão à protetor dos amigos. Tem uma carga emocional muito forte, e só com o olhar já deixa claro o quão fraco é aquela pessoa.

Frederick Lau

O diretor Dennis Gansel consegue adaptar bem a história para a Alemanha onde os alunos já estão cansados de falar ou ouvir sobre Hitler, e mesmo se passando décadas depois da história real, não se torna algo datado, e funciona perfeitamente bem. A única reclamação fica para as motivações do filme. Os alunos são manipulados, viram um grupo e saem pichando a cidade e recrutando novos integrantes para se juntar a “causa”. Porém em nenhum momento o professor os dá algo pelo que lutar, não fala sobre ir contra o sistema, não tem um objetivo fixo, e mesmo assim os alunos saem determinados a espalhar uma ideia que não sabe para onde ir.

Para saber mais, leia : A Terceira Onda : Fascismo na Escola

Enfatizando e maximizando os fatos reais, dando mais volume e consequências ao que aconteceu de fato, A Onda é um ótimo filme e consegue passar sua mensagem com clareza.


P.S : Tem no Netflix