Você provavelmente já deve estar cansado de filmes sobre invasões alienígenas à terra, cheios de politicagem, com um herói improvável que acaba salvando o planeta da terrível ameaça extra-terrestre. E você provavelmente imaginou que A Chegada seria mais um desses filmes, afinal, o que os trailers e todo material divulgado passavam era isso – mais do mesmo. E por conta essa expectativa baixa, é que o filme do incrível Denis Villeneuve é uma das melhores surpresas do ano que se passou, e um de seus filmes inesquecíveis.

Adaptado do conto Story of Your Life, de Ted Chiang, Arrival traz Amy Adams no papel da linguista Louise Banks, especialista em todos os tipos de linguagens (humanas), que foi chamado pelo governo americano para tentar dialogar com os seres heptapods que surgiram misteriosamente em doze naves imensas espalhadas pelo globo. Quando começa o contato, a vida da Dr. Louise começa a se bagunçar, e o filme passa a abordar questões da natureza humana e como nossa espécie está dividida. Os aliens surgem, pousam, não dizem nem fazem nada, nenhum ataque ou tentativa de contato por parte deles – apenas ficam lá, esperando algo acontecer. Com isso, é visto o que cada país faz, quais suas abordagens com os seres que nada fizeram; seria certo atacá-los ? Como entrar em contato com uma raça tão longínqua que só emite ruídos e faz desenhos estranhos que ninguém consegue compreender ? Os clichês surgem, como a China e Rússia propondo ataques e os EUA, como sempre nos filmes, sagaz e paciente com a situação, visando uma melhor saída para aquilo.

Esse é o grande trunfo, que não está só na história, mas também na delicada e detalhada direção de Villeneuve, diretor que vem ganhando nome e respeito no meio cinematográfico com uma ótima sequência de filmes – Os Suspeitos, O Homem Duplicado e Sicario : Terra de Ninguém -; além da trilha sonora cuidadosa e bem encaixada em todas as cenas. A Chegada de certo modo nos faz lembrar de Interestellar, talvez um futuro clássico dirigido pelo genial Christopher Nolan, mas invertendo os papéis do filme estrelado por Matthew McConaughey. Um mundo exterior vem nos visitar e nos fazer questionar nossos sensos morais e o sistema de sociedade atual. Os heptapods são o problema principal, mesmo assim não são o pior dos problemas. É algo semelhante com o que é visto em The Walking Dead, os zumbis estão lá, são uma ameaça, mas o pior problema mesmo são as relações humanas, traições e desconfiança por parte dos outros.

Caindo no clichê mais uma vez (mas agora necessário), as cenas de discussões políticas são bem interessantes e exploram a divisão humana, de fronteiras, raças e ideologias. Para os visitantes, somos todos iguais, mas para nós mesmos somos diferentes. Somos humanos, todos de uma mesma espécie, mesmo assim ainda nos dividimos e damos cada pedaço do planeta sem dono para alguém tomar as rédeas. O filme até menciona isso, num momento de desespero em que alguém lembra que não existe um Presidente da Terra, um líder absoluto, e que talvez isso seja um problema.

Amy Adams está em seu melhor momento da carreira, e é impossível não mencionar a injustiça dela não ser indicada ao Oscar. Dois filmes incríveis no mesmo ano (Animais Noturnos e A Chegada), duas interpretações completamente profundas, introspectivas, e muito diferentes entre si, mesmo assim nenhuma indicação à Melhor Atriz pela academia.
Aqui sua personagem é solitária, e enfrenta o desafio de ensinar inglês aos extraterrestres e ao mesmo tempo entender o que eles dizem. A personagem sai de sua zona de conforto e parte para algo totalmente inesperado, e a atuação de Adams transparece muito bem isso, até nos momentos de silêncio. Jerremy Renner é um ótimo coadjuvante, num personagem que tenta se impôr superior mas logo acaba se rendendo. Com um visual totalmente cansado, nem parece o mesmo cara esbelto da franquia Missão Impossível ou dos Vingadores, fazendo seu Gavião Arqueiro pré-aposentadoria.

O terceiro ato do filme é um pouco enrolado, mas traz o “plot” da trama, se podemos chamar assim. É uma revelação surpreendente, mas de proporções não tão enormes como outros do gênero, como o próprio Interestellar. Mas é capaz de fazer qualquer fã de ficção-científica pirar, e confundir um pouco a cabeça de quem não está acostumado com o gênero, mas não que isso seja algo negativo. Mantém o interesse do público e o força a prestar mais atenção nas nuances da trama.

A Chegada é um dos melhores filmes de 2016, daqueles que ainda estaremos comentando ou lembrando daqui há 6 ou 7 anos, e entra para o hall das grandes obras científicas e sociais, junto com 2001 : Uma Odisseia no Espaço e outros.