John Green é um dos autores mais populares do século, sem dúvida. Sua escrita superou barreiras e trouxe um grande público não acostumado para o mundo da leitura, e de certa forma se tornou um pop-star.

O autor norte-americano ficou famoso pelo livro A Culpa é das Estrelas, que foi o mais vendido no Brasil no ano de 2014, juntamente com a adaptação cinematográfica, que foi o filme mais visto no país naquele ano. Apesar da história não ser totalmente inovadora nos termos literários tendo em vista tudo que já foi publicado no gênero romance até então, conseguiu níveis absurdos de popularidade principalmente entre os jovens. Mas, por quê ?

A Culpa é das Estrelas, além de ter uma reflexão existencial, narra o romance de Hazel Grace e Augustus Waters, dois jovens com câncer que se apaixonam loucamente e vão atrás dos últimos dias de felicidade de suas vidas com dias contados.

Como já citado, o livro caiu no gosto dos jovens, que aparentemente se encontraram na história de Green. Um fator crítico para isso é o ‘exagero’ que o autor dá ao tratar seus personagens. Não só em A Culpa é das Estrelas, mas em todos os seus trabalhos, incluindo o outro que também virou filme, Cidades de Papel. Todos seus personagens tem panos de fundo incríveis e até mesmo absurdos, ou são (tentam ser) profundos demais que se tornam impossíveis e questionáveis.

Margo e Quentin, Paper Towns

Por exemplo, Augustus Waters tem sua metáfora de colocar um cigarro, sem acendê-lo na boca, mesmo tendo câncer, filosofando para “ter algo que te mata bem no meio dos seus dentes, mas não dar à ele o poder de te matar”. Já em Cidades de Papel, Margo Roth Spielgeman é o personagem mais absurdo já criado por John Green. Uma adolescente que lê Walt Whitman, gosta de sumir de casa, deixar pistas para quem conhece e ir para lugares isolados “pensar e refletir um pouco”.

Não só os protagonistas mas todo os personagens de apoio também são assim, em Cidades de Papel isso é mais notável. Os dois amigos de Quentin, ‘herói’ da história, são Radar e Ben, um cujo a família tenta entrar no livro dos recordes com o maior número de papais-noel negros já encontrados numa casa, e outro é conhecido por ter urinado sangue na escola.

“Quem é você, Alasca?”, “O Teorema Katherine”, “Will & Will”, todos neste mesmo padrão, e todos absurdamente sucessos de venda, entre jovens que não estavam acostumados a ler. Então, voltando à pergunta do título, Green constrói personagens tri-dimensionais até mais do que o suficiente; uma história de fundo ao que está sendo focado – em A Culpa é das Estrelas os problemas do câncer atrás do romance, e em Cidades de Papel o romance atrás das aventuras dos amigos em seu último ano de colégio -; e um pouco de reflexão por trás.

Hazel e Augustus, The Fault in Our Stars

Nesses moldes, o adolescente com todos os seus ‘problemas’ de adolescência vê no entretenimento tudo o que falta na sua vida ou em seus relacionamentos sociais, sejam eles amorosos ou até mesmo amizades. O ser humano, em todas suas necessidades, encontra conforto numa coisa que está faltando dentro de si, mas que possivelmente nunca acontecerá, e assim se sente confortável, tenta tapar um buraco existencial que talvez nunca será realmente fechado.

Amizades incríveis e aventuras fantásticas, amores platônicos, capazes de superar tudo. Histórias leves para pessoas tristes, ou incompletas. A ficção de John Green tem tudo o que o adolescente precisa, e por isso é o que é hoje, esse fenômeno global.