Em 1985, os irmãos Louis e Auguste Lumiére mudaram o mundo propagando o áudio-visual ao público, tornando o áudio e vídeo entretenimento e algo que a sociedade poderia usar como diversão. Naquele ano, os dois exibiram numa sala com tela, que logo mais seria chamada de cinema, um pequeno vídeo preto e branco chamado “L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat ou L’Arrivée d’un train à La Ciotat “ – em português, A chegada do trem na estação de Ciotat – que não mostrava nada mais do que um trem chegando à sua estação.

Algo comum do cotidiano, mas que espantou quem estava presente naquela sala, por acharem que o trem sairia da tela e atropelaria-os, e com esse pensamento se esconderam nos fundos da sala. Aquele era o primeiro filme da história, com apenas 60 segundos. O mais impressionante para aquelas pessoas não era a cena em si, mas sim a incrível capacidade dos irmãos Lumiére por conseguirem ‘teleportar’ a vida para uma tela. Daquela forma, coisas que acontecem do outro lado do mundo poderiam ser exibidas aos moradores da França, com total facilidade e acesso.

De lá pra cá, o cinema tomou várias formas, vários rumos, até se tornar comercial, se tornar um produto. Mas o seu principal objetivo ainda continua, não com tanta força, mas continua; que é o de trazer uma experiência envolvendo som e imagem. 3D, 5D e agora o VR, as formas de fazer isso se tornaram cada vez mais imersivas. Mas, ainda é possível fazer esse tipo de cinema apenas com o bom e velho cinema.

No dia 8 de Setembro de 2016, o diretor Fede Alvarez (Ataque de Pânico e A Morte do Demônio de 2009), com a ajuda do produtor Sam Raimi (Trilogia Homem-Aranha, Oz : Mágico e Poderoso, e A Morte do Demônio de 1981) traz uma das melhores experiências que os filmes daquele ano poderiam trazer. Em meio a sequências, reboots, refilmagens, adaptações, os dois trazem uma história original, com pouquíssimos personagens, mas que se propõe além de seus dramas e motivações.

O Homem nas Trevas (Don’t Breath, no original) acompanha três jovens ladrões que são extremamente cautelosos em seus crimes, evitando riscos maiores como a cadeia. Seus roubos são devidamente pequenos, até que um dia surge a oportunidade do já clichê crime final, que resolveria os problemas da vida desses três personagens. O roubo envolve pegar uma enorme quantia de dinheiro de um veterano do exército, que lutou no Vietnã e devido à guerra ficou cego.

A história é basicamente essa, e não há um grande esforço de Alvarez ou Raimi em detalhar as motivações dos bandidos, afinal, o trunfo do filme não está aí. O que deveria ser um assalto fácil acaba virando um pesadelo quando o personagem cego de Stephen Lang se mostra como uma espécie de ‘Daredevil’ e decide espantar aqueles assaltantes de sua casa. E essa é a história com a qual você deve se importar.

Fede Alvarez é um dos pródigos nomes do suspense, e tem uma incrível habilidade de dirigir cenas em ambientes fechados. Esse filme se passa todo dentro de uma casa, e mesmo assim não se torna entediante, mas pelo contrário : cada vez mais intenso. A fotografia em diversos momentos usa o mesmo estilo de filmagem de ‘Birdman’ (2014), a câmera acompanhando as ações sem corte, tudo muito bem feito e fluído.

Como o personagem de Lang é cego porém perigoso, os assaltantes não podem fazer qualquer barulho para não serem identificados, obviamente. O silêncio do ambiente e a escuridão tomam conta do longa, juntamente com o suspense agonizante somado a ruídos desesperadores da trilha sonora, feita na medida; dão o tom que segue até o final.

 

Partindo para o final do filme, a história apresenta revelações perturbadoras, e em um momento o Velho apaga todas as luzes da casa, deixando todos os invasores nas trevas totais e vendo o mundo como ele vê; esse é definitivamente o ápice de todo aquele clima tenso construído.

O Homem nas Trevas é sem dúvidas um dos melhores filmes de suspense do século, daqueles que deixam o coração palpitando mais rápido do começo ao fim. Apesar de vários clichês dos filmes de terror, o diretor usa um traço característico de suas outras produções, que é estender o desfecho. Pode não agradar alguns, mas foge totalmente do esperado e quando tudo parece que vai terminar bem para os protagonistas, só piora, diversas e diversas vezes.