Talvez filmes que se passam na segunda guerra mundial estejam ficando saturados e se tornando todos semelhantes em cenas de ação, diálogos e fotografias. Porém, no meio da maior guerra da humanidade, além da história que se estuda na escola e sobre como tudo acabou bem, existem os pequenos casos que muitas vezes passam despercebidos ou não estão no grande foco. Casos sobre pessoas simples, soldados que eram apenas números para ajudar seu país a vencer a batalha que acabaram eternizados por fazerem coisas inacreditáveis e fundamentais para que tudo ocorresse do jeito que conhecemos.

Hacksaw Ridge (adaptado em português para Até o Último Homem) é um filme de Mel Gibson que narra a história real de Desmond Doss, cristão que vai à segunda guerra servir como médico com a condição de não tocar em armas devido à dogmas religiosos e traumas de infância. Desmond é interpretado por Andrew Garfield, que apesar de não ter uma aparência muito semelhante com a do original, faz uma interpretação excelentemente convincente e a indicação ao Oscar é merecida. Com esses ideais, Desmond começa a ser questionado e até rejeitado em meio aos outros soldados, sofre muito com isso física e psicologicamente mas não desiste de seguir o que acredita.

É uma incrível mistura de filme religioso com toda a violência que Mel Gibson sabe dirigir. Alguns erros de roteiro acontecem na transição do primeiro ao segundo ato, com cenas clichês e até bregas (como a do julgamento de Doss, primeiro Opositor Consciente) que só servem para o filme chegar onde pretende, mesmo que soem sem sentido ou sem peso para a história. É interessante ver o balanço disso tudo, como as coisas se contradizem. Um soldado que se alista mas não quer matar em meio à uma guerra, impotente, optando por não ter como se defender mesmo com tripas e pernas voando ao redor, Doss dá o direito de tirar vidas apenas à Deus, enquanto isso ele estará lá para ajudar a salvá-las.

Os coadjuvantes servem para botar lenha nessa fogueira, sendo os principais deles o sargento Howell e o soldado Smitty, que fazem de tudo para Desmond repensar seus conceitos; além da noiva Dorothy (Teresa Palmer) que questiona se o futuro marido não faz isso apenas por ignorância ou orgulho. Na Batalha de Okinawa, onde está o centro da história, é que começa o verdadeiro show de todas as partes. O diretor Mel Gibson com seu talento para mostrar violência; Andrew Garfield contracenando muito bem com tudo ao seu redor, se escondendo dos inimigos (afinal, ele não usa armas) e salvando 75 soldados que já eram dados como esquecidos. O ponto alto de sua atuação é quando pede à Deus para que possa salvar mais um homem, e mais um, e mais um, e assim por diante até completar o número.

Apesar disso, o filme não sabe muito bem o que quer, se quer ser um incrível filme de guerra bebendo de águas conhecidos de O Resgate do Soldado Ryan, Invencível, e até Forrest Gump além de muitos clichês retirados da série Band of Brothers; ou se quer ser uma história de motivação e fé, mesmo com o desejo sádico de seu diretor, que não escolhe lados.