A HBO sempre teve talento para fazer produções vencedoras, em todos os sentidos. Veja Game of Thrones por exemplo, é a série mais premiada da história, que esse ano levou o Emmy nas principais categorias novamente.

Apesar da sexta temporada da adaptação da obra de George R.R Martin não ter sido tão boa quanto a quarta ou a primeira, o mediano da HBO, é o máximo que algumas outras produtoras conseguem alcançar. A quinta temporada por exemplo, pode ter sido a pior, mesmo assim não faltaram indicações à Globo de Ouro ou Emmy.

Game of Thrones foi o carro-chefe da Home Box Ofice por anos, mas tudo que é bom tem fim. A série já começou a andar sem dar as mãos aos livros, e os roteiristas tiveram que exercitar a criatividade para chegar no desfecho proposto por George Martin. E quando essa série acabar, o que a HBO vai fazer ? Afinal, são investidos pelo menos 10 milhões de dólares por episódio, e é a série com a maior audiência da Televisão, não dá pra simplesmente deixar o público carente de uma grande obra nas noites de domingo.

Por isso, em todas situações, é sempre bom ter um plano B, e a HBO bolou um de maneira muito bem pensada. Westworld estreou em 2016 e só voltará em 2018. 2018, coincidentemente o ano em que Game of Thrones termina de vez. Jonathan Nolan (sim, o irmão do Chistopher Nolan) e sua esposa Lisa Joy foram convidados para reformular o filme com mesmo nome e proposta, de 1973, só que dessa vez com o investimento milionário do canal de TV pago.

Westworld em primeira instância, em seus trailers e material de divulgação, parecia ser só mais uma história barata de máquinas se rebelando contra os homens, e começando uma guerra, como diversos e diversos filmes que vemos todos os anos.

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Mas nunca se deve esperar isso de uma produção original HBO, ainda mais com Jonathan Nolan no comando, que também foi responsável pelos roteiros de A Origem (Inception) e Interestellar, dirigidos por seu irmão mais velho.

A história se passa em um futuro sem data, onde os humanos cansaram de visitar a Disneylandia ou jogar videogames, e agora querem experiências mais reais e imersivas, aos extremos dessas duas palavras. Dr. Ford com a ajuda do seu misterioso sócio Arnold criam um parque de velho-oeste cheio de robôs que simulam humanos de época, e servem para satisfazer quem estiver disposto à pagar para brincar de cowboy, matar e transar sem ressentimentos.

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A série bebe muito da água do seu material original, de 73, porém digamos que o filme foi aperfeiçoado. Eram conceitos difíceis pra época, tanto que o filme não marcou tanto como De Volta para o Futuro ou Laranja Mecânica, dois anos antes.

Muitos aspectos e até mesmo reviravoltas daquele filme foram reutilizados, mas convenhamos, é muito melhor contar uma história em 10 horas, uma por semana, do que num compacto de duas horas, com começo, meio e fim.

Diferente de Game of Thrones, Westworld não teve UM episódio ruim. A continuidade dos episódios, a forma como foram montados, não deixavam a série cair muito de nível. Obviamente que alguns episódios são mais lentos que outros, e alguns personagens não colaboram para deixar a série perfeita, mas a regularidade e eficiência na hora de produzir essa história é impressionante.

Se Stranger Things tem uma história simples e previsível com poucos episódios; Game of Thrones tem núcleos muito ruins que fazem qualquer episódio ficar abaixo do esperado e MR. Robot tem coisas que só o criador Sam Esmail consegue entender; Westworld foi muito linear, todo episódio variando entre notas 8, 9 e 10, uma história cheia de suspense, dando possibilidades à teorias e mistérios para serem resolvidos, que mantinham o público vidrado em toda cena, pra não perder nada.

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Muito além de uma série com revolta de máquinas e efeitos visuais impressionantes, Westworld está nas entrelinhas, nos diálogos, sempre à procura de uma resposta para a autoconsciência, com temas filosóficos e o clássico relacionamento entre criador e criatura.

Os anfitriões do parque vivem suas vidas normalmente, sem saberem o que está por trás, a verdade sobre suas existências. A série sabe muito bem mostrar o choque de realidade ao esses seres descobrirem que vivem numa mentira, vivem pela satisfação e loucura de alguém. E o que impede que nós, humanos, também não estejamos vivendo assim ? O que prova que não estamos vivendo numa Matrix, e que em algum lugar por aí não exista alguém jogando The Sims, e nós somos os Sims ?

 

Westworld trouxe de volta essas discussões, muito além de questionar quem vai namorar com quem dentro da série.  Junto com Black Mirror e Mr. Robot, Westworld vai iniciando uma revolução na TV, em busca da autoconsciência do espectador. Quem disse que série é só entretenimento ? Quem disse que para assistir série é preciso desligar a mente e apenas se divertir ? Que tal pensar um pouco ?

Os problemas da série se podem contar nos dedos, devido à tanta eficiência. Maeve, por exemplo, teve um começo interessante, se mostrando a primeira a se rebelar, porém toda vez que ela entrava em cena, a série perdia o ritmo e ficava um tédio. A maior forçação de barra pra cima do espectador, que a esse ponto, já não aceita mais qualquer explicação bobinha.

E teve também o personagem de Rodrigo Santoro, o brasileiro. Um marketing enorme, afinal, não é sempre que se tem um ator das terras do pau brasil numa produção tão grande. Seu personagem  era forte, um matador do velho-oeste, porém apareceu poucas vezes, apenas como gancho para outros personagens ou objeto sexual.

A próxima temporada chega só em 2018, como já citado, mas as possibilidades são enormes. Novos parques ? Talvez. Seria interessante ver aquele mundo de Samurais, que até apareceu um pouco no último episódio. O desfecho sanou muitas dúvidas mais aumentou a curiosidade pra cima da série. Jonathan e Lisa Joy tem bastante tempo pra pensar no que fazer agora, isso é bom, deixando um pouco de lado a visão financeira e se focando na arte, num produto de qualidade. Sem pressa.